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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Chesterton e o casamento gay - Não é gay e não é casamento

Tradução de: http://www.catholiceducation.org/articles/marriage/mf0167.htm

G.K. Chesterton: Não é Gay, e não é casamento
DALE AHLQUIST

Chesterton esteve constantemente certo em seus pronunciamentos e profecias porque ele entendeu que qualquer coisa que atacasse a família era ruim para a sociedade.

G.K. Chesterton
1874-1936

Uma das questões populares no tempo de Chesterton era 
"controle de natalidade".  Ele Não só objetava à ideia, ele 

objetava ao próprio termo porque ele significava o oposto do que dizia. Não significava natalidade, nem controle. Eu só posso imaginar que ele teria as mesmas objeções ao "casamento gay". A ideia é errada, mas o nome também. Não é gay e não é casamento. (NT: "gay" em inglês significa originalmente "feliz, alegre")


Chesterton esteve constantemente certo em seus pronunciamentos e profecias porque ele entendeu que qualquer coisa que atacasse a família era ruim para a sociedade. É por isso que ele falou contra a eugenia e a contracepção, contra o divórcio e o "amor livre" (outro termo que ele não gostava, por sua desonestidade), mas também contra a escravidão salarial, a educação estatal compulsória e mães contratando outras pessoas para fazer o que as mães são boas em fazer por si próprias. É seguro dizer que Chesterton permaneceria contra toda as tendências e novidades que se espalham como praga nos dias de hoje porque cada uma dessas tendências e novidades enfraquece a família. O Grandes Governo tenta substituir a autoridade familiar, e o Grande Negócio tenta substituir a autonomia da família. Há uma constante pressão cultural e comercial sobre pais, mães e filhos. Eles são minimizados e marginalizados e, sim, ridicularizados. Mas, como Chesterton diz, "Esse triângulo de truísmos, de pai, mãe e filhos, não pode ser destruído; só podem ser destruídas as civilizações que o negligenciam."

O último ataque à família não nem o último nem o pior. Mas tem um valor chocante, em que pese o processo de dessensibilização que a indústria da informação e do entretenimento nos trouxeram nos últimos anos. Os que tentaram falar contra a normalização do anormal encontraram "insultos ou silêncio", como Chesterton foi quando tentou argumentar contra as novas filosofias que eram promovidas pelos maiores jornais em seus dias. Em 1926, ele advertia, "A próxima grande heresia será um ataque à moralidade, especialmente a moralidade sexual." Seu aviso passou despercebido, e a moralidade sexual decaiu progressivamente. Mas, permitamo-nos lembrar que isso começou com o controle da natalidade, que é uma tentativa de criar o sexo como um fim em si mesmo, trocando um ato de amor por um ato de egoísmo. A promoção e aceitação do sexo sem vida, estéril e egoísta progrediu logicamente para a homossexualidade.

Chesterton mostrou que o problema da homossexualidade como uma inimiga da civilização é bem antigo. Em The Everlasting Man, ele descreveu o culto à natureza e a "mera mitologia" que produziu a perversão entre os gregos. "Assim como se tornaram antinaturais por cultuarem a natureza, se tornaram verdadeiramente anti-humanos por cultuarem o homem." Qualquer jovem, ele diz, "que tenha a sorte de crescer são e simples" tem naturalmente repulsa à homossexualidade porque "não é verdade para a natureza humana ou para o senso comum". Ele argumenta que se tentarmos agir com indiferença sobre isso, estaremos nos enganando a nós mesmos. É a "ilusão da familiaridade", quando uma "perversão se torna uma convenção".

Em Hereges, Chesterton quase faz uma profecia sobre o uso errado da palavra "gay". Ele escreve sobre "a muito poderosa e triste filosofia de Oscar Wilde. É a religião do carpe diem." Carpe diem significa "aproveite o dia," faça o que quiser e não pense nas consequências, viva somente o momento. "Mas a religião do carpe diem não é a religião de pessoas felizes, mas de pessoas muito infelizes." Há uma falta de esperança, assim como há falta de felicidade nela. Quando o sexo é somente um prazer momentâneo, quando não oferece mais nada além de si mesmo, não traz contentamento. É literalmente sem vida. E Chesterton escreve sobre isso em seu livro São Francisco de Assis, no momento em que o sexo deixa de ser um servo, se torna um tirano. Essa é, talvez, a mais profunda análise do problema dos homossexuais: eles são escravos do sexo. Eles estão tentado "perverter o futuro e desfazer o passado." Eles precisam ser libertados.

O pecado tem consequências. Ainda que Chesterton sempre sustente que devemos condenar o pecado e não o pecador. E ninguém demonstrou mais compaixão pelos caídos do que G.K. Chesterton. De Oscar Wilde, a quem ele chamava "o Chefe dos Decadentes", ele dizia que Wilde cometeu um "erro monstruoso" mas também sofreu monstruosamente por isso, indo para uma terrível prisão, onde foi esquecido por todas as pessoas que, antes, brindaram a sua cavalheira rebelião. "A sua vida foi completa, no sentido terrível de que a sua vida e a minha são incompletas, desde que não paguemos por nossos pecados. Neste sentido, alguém pode chamá-la de vida perfeita, como alguém fala de uma perfeita equação; ela se anula. De um lado, nós temos o saudável horror do mal; do outro, o saudável horror da punição."

Chesterton se referia ao comportamento homossexual de Wilde como um pecado "altamente civilizado", algo que era a pior aflição entre as classes ricas e cultas. Era um pecado que nunca foi uma tentação para Chesterton, e ele dizia que não era uma grande virtude para nós nunca cometer um pecado do qual nunca fomos tentados. Há uma outra razão pela qual devemos tratar nossos irmãos homossexuais com compaixão. Nós conhecemos nossos próprios pecados e fraquezas suficientemente bem. Philo de Alexandria dizia, "Seja gentil. Todos que você conhece estão travando uma terrível batalha." Mas a compaixão não pode nunca se comprometer com o mal. Chesterton pondera que nossa verdade não pode ser impiedosa, nem nossa pena ser mentirosa. Homossexualidade é uma desordem. É contrária à ordem. Os atos homossexuais são pecaminosos, ou seja, são contrários à ordem de Deus. Eles não podem nunca ser normais. E, pior ainda, não podem nunca ser equilibrados. Como o grande detetive de Chesterton, Padre Brown, dizia: "Os homens podem manter um determinado nível de bondade, mas nenhum homem até hoje foi capaz de manter um determinado nível de maldade. Esse caminho leva cada vez mais para baixo."

Casamento é entre um homem e uma mulher. Isso é ordem. E a Igreja Católica ensina que isso é uma ordem sacramental, com implicações divinas. O mundo veio zombando do casamento de maneira que agora está culminando como uniões homossexuais. Mas são os homens e mulheres heterossexuais que pavimentaram o caminho para esse decaimento. O divórcio, que é uma coisa anormal, agora é tratado como normal. A contracepção, outra coisa anormal, agora é tratada como normal. O aborto também não é normal, mas é legal. Fazer o "casamento" homossexual legal não o fará ser normal, mas irá contribuir para a confusão dos nossos tempos. E irá contribuir para a espiral de decadência da nossa civilização. Mas a profecia de Chesterton permanece: "Nós não seremos capazes de destruir a família. Nós iremos meramente destruir a nós mesmos por negligenciar a família."

sexta-feira, 1 de março de 2013

Casamento gay - maquiavélica destruição da família

Veja antes: Família - afetos e afetações

Agora que consideramos a natureza humana e temos pistas sobre algumas causas naturais de alguns comportamentos humanos -- como comentado em Ecce Homo -- podemos analisar as escolhas dos seres humanos, pois também é da nossa natureza poder fazer escolhas a partir do que sentimos. Talvez devemos analisar mais dois sentidos para palavra natureza. Um é relativo aos comportamentos que temos, que podem ter causas as mais diversas. Naturalmente temos vontade de comer, de dormir, de sorrir, de esganar alguém, de fazer sexo com alguém. Existem explicações naturais para pessoas que são canhotas, até para traços de personalidade, por exemplo introversão e extroversão. Mas, outro sentido tem a ver com a finalidade das coisas. A natureza do olho é ver, a natureza do pé é andar, a natureza do estômago digerir. Assim, quando o crente diz que algo vai "contra a natureza", baseado nos textos de São Paulo, o que São Paulo queria dizer é que usar os órgãos reprodutivos para outra coisa que não é a finalidade deles não é bom. O comportamento homossexual, portanto, pode ser considerado natural no primeiro sentido, dado que é uma coisa observada e até explicada de alguma forma, mas não no segundo sentido, quando parte de uma concepção de mundo em que as coisas têm um determinado propósito para existir. Não dá pra discordar quando alguém diz que homossexualidade é comportamento. Pode ter a causa que for, com explicação científica e tudo, mas é um comportamento, e como qualquer outro deve ser objeto de juízo moral, de conveniência para as próximas gerações. É isso que a humanidade sempre tem que fazer pra poder viver em sociedade. Qualquer criança deveria aprender que não se pode fazer tudo o que quer. Desejos não são direitos. Daí podemos voltar a refletir sobre a família, com menor risco de confusões nesse ponto.

Quando se estuda História, deve-se evitar as chamadas falácias de Parmênides - analisar fatos passados sob o prisma dos conhecimentos e da linguagem de hoje. Veja aqui um exemplo. Para entender um texto, não se pode ficar preso ao significado atual das palavras, mas no sentido que o contexto e a época estudada davam a ela. Por essa razão, os significados que usarei, para poder dialogar com os textos que serão citados, são que um "casal" é um homem e uma mulher (quando alguém diz que tem um casal de filhos, logo pensa em um menino e uma menina, ninguém pensa dois meninos ou duas meninas) e que surge uma "família" desse relacionamento, quando se incorporam a ele filhos. Esses significados estão ficando cada vez mais distantes de nós.

Mesmo o comunista Friedrich Engels percebe, em "A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado", que o reconhecimento da molécula fundamental pai-mãe-filho coincide com o início do desenvolvimento das civilizações. Só que Engels considerava a família como um produto do meio, e não o contrário. Discordando das ideias comunistas, no lado oposto das discussões antropológicas do século XX, Bronislaw Malinowski, em "Sex and Repression in Savage Society", indica que quando os humanos começam a controlar seus instintos em sociedades organizadas, a família se torna o berço do nascimento da cultura. Não é um produto dela, mas o ponto de partida da organização social. Até chegar nisso, as sociedades primitivas foram desenvolvendo regras para o comportamento sexual, ou seja, mesmo nas tribos mais selvagens já existiam limitações. A cultura não é instintiva para o homem, mas um produto de esforço moral e disciplina social. Assim se desenvolveram, mais do que outros, os povos europeus, chineses, indianos, na antiguidade. Quando, porém, os gregos e romanos começaram a liberar comportamentos como, dentre outros, a homossexualidade, o aborto, o declínio no número e tamanho das famílias, não por acaso seu declínio se acentuou. À medida que se revalorizava a família, a civilização européia se recuperava. Ou seja, quanto mais se tem o "direito" a fazer o que se quer, mais nos aproximamos da barbárie. A civilização é fruto das virtudes, não do seguimento dos instintos. Outros pensadores desenvolveram o tema:

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"A família pudera-se muito bem definir como uma instituição humana essencial. Ninguém negará que ela foi a célula principal e a unidade central de quase todas as sociedades que até hoje existiram, excetuando-se, é claro, sociedades tais como a da Lacedemônia, que teve por objetivo supremo a eficiência e pereceu sem deixar vestígio de sua passagem sobre a terra. A despeito de sua profunda revolução, o Cristianismo nem por isso alterou aquela antiquíssima e bárbara relíquia; não fez senão inverter-lhe a ordem. Não negou a trindade de pai, mãe e filho. Apenas a leu ao contrário, convertendo-a em filho, mãe e pai. E ela passou a chamar-se, não simplesmente família, mas Sagrada Família, pois acontece que muitas coisas ficam sagradas quando são vistas ao contrário. Entretanto, alguns sábios de nossa decadência têm atacado a família. Impugnaram-na, segundo creio, erroneamente; ao passo que outros a têm defendido, mas também equivocadamente. O argumento mais comum de defesa é o de que, em meio à tensão e ao torvelinho da vida, a família representa algo tranqüilo, agradável e coeso. Mas há um outro possível argumento de defesa, que me parece evidente, qual seja o de que a família não é algo tranqüilo, agradável ou coeso." G.K. Chesterton


"A criança é o corolário significativo do pai e da mãe, e o facto de se tratar de uma criança humana traduz o significado ancestral dos laços humanos que ligam o pai e a mãe. Quanto mais humana, e por isso menos bestial, for a criança, mais esses laços ancestrais são duradouros e adequados à ordem da natureza. Por isso, não é um progresso na cultura e na ciência a tendência para enfraquecer esse vínculo primordial, mas antes o progresso deve ir logicamente no sentido de fortalecê-lo… Este triângulo de truísmos constituído pelo pai, pela mãe e pela criança, não pode ser destruído; só podem ser destruídas aquelas civilizações que não o respeitam." G. K. Chesterton

"Exceto pelas crianças, não haveria necessidade de qualquer instituição preocupada com o sexo. É somente por causa das crianças que as relações sexuais têm importância para a sociedade e merecem ser reconhecidas por uma instituição legal." Bertrand Russel

"A pátria é a família amplificada." Rui Barbosa

Desta forma, para a lei, o diferente, conceitualmente falando, de todas as relações sexuais humanas existentes, é o casamento, pelo seu potencial de realmente se tornar uma família. Por causa das crianças, não dos adultos, o Estado concede determinados direitos aos casais, porque se entende que é justo, por trazer um bem para a sociedade: os bebês e seu cuidado, que surgem espontaneamente. Ao tratar desigualmente os desiguais, ninguém tem direitos diminuídos por isso.

Pois bem, em nome da igualdade, do progresso, da mente aberta, do pensamento correto, somos chamados a revisar o conceito de família, "base da sociedade", segundo a Constituição de 1988, art. 226, caput. O Código Civil traz, no seu Art. 1.723, "É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família." Ora, na época da Emenda Constitucional que instituiu a união estável, reconhecia o ministro Ricardo Lewandowski, “nas discussões travadas na Assembleia Constituinte a questão do gênero na união estável foi amplamente debatida, quando se votou o dispositivo em tela, concluindo-se, de modo insofismável, que a união estável abrange, única e exclusivamente, pessoas de sexo distinto".


Em se tratando da base do edifício, todo o cuidado é pouco para o restante não ruir. É no mínimo arriscado, pois, a redefinição de casamento e família, porque são instituições que não foram inventadas pelos seres humanos, mas descobertas, reconhecidas, e por isso atemporais. Um belo dia nos demos conta de sua existência e lhe demos um nome. Podemos melhorar a descrição de como ela é, mas nunca redefini-la. Em relação a este tipo de coisas, não se deveria raciocinar em termos de Direito Positivo, mas de Direito Natural. 

Dentre as várias perspectivas pelas quais a questão pode ser avaliada, deve ser priorizada a das crianças, pois são a parte mais frágil da situação. São elas que têm o direito de nascer fruto de um casamento, e não o contrário. As sociedades descobriram, pelo bem das crianças, que o casamento tem o potencial de gerar filhos e cuidar deles com um afeto naturalmente virtuoso -- uma família. A família deve ser, para os adultos, antes um dever perante as crianças, do que um direito. O casamento não é somente uma união romântica de afetos, mas também um comprometimento perante a sociedade de cuidar dos frutos dessa união. As crianças têm o direito de serem geradas em um ambiente saudável, fruto de uma união entre duas pessoas responsáveis, não de encontros frugais de duas pessoas que mal se conhecem, ou de relações que buscam tão somente uma busca de prazer inconsequente. Nós, adultos, temos plena capacidade de nos esforçarmos nesse sentido.

Por isso, várias culturas perceberam que o melhor para as crianças é que casamentos sejam indissolúveis, únicos, até à morte. O adultério é uma relação não oficial, um acasalamento fora da expectativa cultural das pessoas, mas que ainda assim não muda o fato de que uma criança só pode ser proveniente de um encontro entre um homem e uma mulher. Ainda que fora das convenções sociais ideais para ela, a criança fruto de um adultério continua a ter um pai e uma mãe. Pelo mesmo fato biológico imutável, as técnicas de tratamento da infertilidade fortalecem a potencialidade de que novas vidas sejam geradas por um homem e uma mulher, diminuindo então a objeção a que pessoas inférteis se casem. Não há diferença no tipo de relacionamento sexual de casais férteis ou inférteis como potenciais geradores de vidas. A possibilidade teórica de geração mútua é que torna a união de duas pessoas um casamento e uma potencial família. Tanto que infertilidade ou impotência é condição suficiente para anulação de casamento (inclusive para a Igreja Católica, diga-se de passagem), o que é diferente do divórcio. Declara-se nulo algo que nunca existiu, portanto não pode ser desfeito. 

Isso tudo fortalece a instituição do casamento, ao invés de enfraquecê-la. Poder-se-ia questionar se pessoas idosas ou irremediavelmente inférteis deveriam ter acesso ao casamento. Mesmo assim, esses casamentos se aproximam da relação fértil, à medida que reproduzem a complementaridade dos sexos. De qualquer forma, considero mais razoável não haver esses casamentos do que haver entre  homossexuais. Mas, levando em conta a possibilidade de adoção, os idosos e inférteis ainda podem se "aproximar da filiação natural", conforme comentarei adiante.

Mesmo que a moral sexual apresente diferenças nas diversas partes do globo no decorrer da história, em todas há o aspecto comum de se preocupar com a prole e seu cuidado, elaborando regras e restrições ao comportamento sexual dos indivíduos -- por exemplo, para controlar relações incestuosas, consanguíneas e pedofilia. Todas essas coisas são naturais (no primeiro sentido) no ser humano, mas saber controlar certas vontades naturais em sociedade é o que nos diferencia dos animais. Ou seja, mesmo entre homem e mulher, não é todo mundo que pode se casar. Isso porque as crianças têm o direito de saber quem são seus pais e serem cuidadas por eles. Cachorros fazem tudo o que querem, nós não. 

A criança tem o direito de ter uma genealogia, por isso, em uma certidão de nascimento deve constar o nome do pai e da mãe, independente do relacionamento que eles têm hoje, pois o que importa é o que tiveram uma vez e que gerou a criança. Uma criança pode ter um pai e um padrasto, por exemplo, e/ou uma mãe e uma madrasta, nos casos de divórcio, adultério ou viuvez. Padrastos e madrastas não precisam adotar o filho de seu companheiro para tratá-lo como enteado, nem alteram o sentido original de família para a criança. Há uma ordem: o padrasto e a madrasta não são pai nem mãe, tanto que recebem outro nome. Pode-se construir laços afetivos como se da família fossem, mas não irão constar em seus documentos, nem terão primazia de direitos em relação aos pais. Nada muda, para a criança, a sua gênese - seu pai e sua mãe. Ela tem o direito de conhecê-los, conviver, ser educada e cuidada por eles, de se situar em uma genealogia, de saber que tem uma origem.

Tristemente, algumas perdem seus pais ou são abandonadas, sendo cuidadas por outras pessoas em orfanatos. O Estado as mantém porque são uma parcela indefesa da sociedade, é justo e de interesse público cuidar delas e incentivar particulares a prestar esse serviço. É melhor, então, que alguém se disponha, generosamente, a cuidar delas. O Estatuto da Criança e do Adolescente regulamenta a adoção nos termos, dentre outros, do seu artigo 43, que tem por redação: "A adoção será deferida quando apresentar reais vantagens para o adotando e fundar-se em motivos legítimos." Recomendo a leitura deste estudo aqui, de uma especialista em Direito Civil, no qual é notável a preocupação de "imitar a filiação natural". Há também um juízo moral previsto na lei, vide seu Art. 3º, que é necessário, pois não é só porque existem interessados se apresentando que essa adoção será boa para a criança.

Assim, um homem e uma mulher generosos podem se oferecer para substituir, de fato e de direito, o pai e a mãe daquela criança, que irão "imitar a filiação natural". A criança tem o direito de receber um pai adotivo e uma mãe adotiva, havendo uma ordem respeitada aqui: o pai e a mãe adotivos são pai e mãe substitutos, já que os primeiros estão indisponíveis por força maior. Recriam, pois, esses laços para ela. Quando, por outro lado, ela é cuidada por 30 funcionários públicos no orfanato, nem por isso precisa ser registrada com, digamos, 10 "pais" e 20 "mães", pois são só pessoas que cuidam dela. Em alguns casos, se tem concedido que a criança seja adotada por uma pessoa somente, tendo somente um pai ou somente uma mãe em sua certidão, o que não foge tanto de uma situação real, mas mesmo assim indesejável. Se um dos pais está morto, ele não deixa de ser pai ou mãe. Quando, porém, dois homens ou duas mulheres adotam uma criança, a privam do seu direito de ter um pai ou uma mãe. Se fossem imitar uma situação natural, poderiam adotar a criança com um pai ou uma mãe, mas não é isso o que querem. Colocam o seu suposto direito na frente do da criança.

Vejamos este caso sob a ótica da criança. Quando fizeram a inseminação artificial, alguém pensou no direito dela de ter um pai conhecido? Ela veio do espermatozoide de um pai que se negou previamente a conhecê-la, com o consentimento da mãe, que pagou - caro - por isso. Fizeram bastante força para gerar a coitada da criança nessa situação. Por que se permite que isso aconteça? É um abandono premeditado e intencional. É completamente diferente da pessoa que perde o pai ou é abandonada. Querem lhe dar uma segunda mãe no lugar do pai. Ora, ela tem um pai. Ou seja, desde o início o direito prioritário não foi o da criança. Agora querem remendar um mal-feito com outro -- uma gambiarra jurídica. Seria menos complicado explicar para a criança que ela não tem pai conhecido do que duas mães -- o que ela não tem, definitivamente. Ela vai ser criada num ambiente que diz: não precisamos de homens, podemos comprar esperma congelado, como bois e vacas. Ser mãe e homossexual dessa forma significa dizer para a criança: eu desprezo o seu pai e ele despreza você, você foi gerada num ambiente de mútuo desprezo. Isso está bem longe do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. 

Há um falso conceito, derivado da ideologia de gênero, de que não existe nenhuma diferença entre os sexos. Daí alguns pensam que qualquer diferenciação entre os sexos é uma discriminação injusta. Se assim fosse, tanto faria ter duas mães ou dois pais, pois não existiria figura masculina ou feminina. Mas, se tanto faz o sexo, termos como heterossexual e homossexual não fazem sentido. Se pedem tanto respeito às diferenças, por que insistem tanto em que não há diferenças? Por que chamam de retrógrados os que não defendem mudanças nas leis, mas para isso usam como argumento a (falta de) lei moral de milênios atrás? Tudo isso é falso porque evidentemente auto-contraditório, como o cético que duvida de tudo, até da sua dúvida. Falso, porque não corresponde à realidade. Afinal, a pessoa que quer ter filhos tem que se render à diferença imposta pela biologia, que permitiu a sua própria existência. Confundem igualdade com equivalência. Homens e mulheres são iguais em dignidade, mas não são equivalentes em suas características, ou nem mereceriam distinção linguística. Toda criança aprende a diferença entre meninos e meninas. O que vão querer fazer com isso depois de crescidos é outra coisa. A luta pelo respeito à diferença terminou por anular a diferença. No comunismo terminamos todos pobres, no gayzismo  terminamos todos assexuados.

Em resumo, a adoção por um casal reafirma a importância da família para aqueles que a perderam, reconstruindo laços cortados, enquanto a adoção por outras pessoas os afastam da ideia de família, necessariamente. Casar-se e ser pais de crianças não depende da sexualidade da pessoa, mas do seu sexo em si. Sexo, do latim sectare - separado, diferente. Uma criança precisa de pai e mãe, por mais amor que possa ser dado na ausência de um, sempre haverá uma lacuna. Se há muitos órfãos, por que, em nome da dignidade da pessoa humana, o governo não incentiva economicamente casais a adotar crianças? Talvez usando as verbas públicas para os orfanatos, ou o dinheiro gasto para distribuir lubrificantes sexuais? As crianças não tiveram a opção de serem abandonadas. A tão defendida opção sexual agora tem que ser financiada com dinheiro público?

Mesmo que se desconsidere as crianças, não é justo nem de interesse público que dois homens ou duas mulheres tenham direitos diferenciados só porque gostam de fazer determinado uso de seus órgãos reprodutores. O que há de tão importante e benéfico para a sociedade nisso? O que há de tão sagrado aí que ninguém possa julgar ao menos moralmente reprovável? Querem ter acesso aos direitos dos casais sem ser um casal de fato.

Mas vamos fazer um esforço e tentar pensar que estamos somente tentando melhorar a definição para incluir o que antes não estávamos percebendo por preconceito e conservadorismo irrefletido. Vamos supor que o casamento é feito somente de afeto. Então dois amigos que dividam um apartamento e se gostam bastante são um casal. Ah, não, para isso eles precisam ter relações sexuais. O fundamento dessa "família", na verdade, é um afeto acrescido de coito anal, e seus frutos vão terminar na privada, na melhor das hipóteses... O que a sociedade ganhou com isso? Mais cocô? Nesse raciocínio, se meu pai começar a odiar minha mãe ele deixa de ser minha família? Se meu avô e minha avó não fizerem mais nada na cama, deixaram de ser um casal, apesar de terem dezenas de herdeiros? Sentimentos vão e vêm, a base da sociedade devia ser algo mais firme, não?

A família torna possível a sociedade, primeiro gerando bebês e depois criando estruturas sociais civilizadas que cuidam deles com afeto. O casamento e a família são nomes para instituições que existem independente da lei, que não tem o poder de criá-los ou redefini-los, mesmo que se queira, só restando reconhecê-los pelo que são, independente de nossa vontade. Podemos até chamar um quadrado de triângulo, mas ele não deixará de ter quatro lados porque o chamamos com o nome de outra coisa. Um relacionamento homossexual não será nunca um casamento, menos ainda uma família, mesmo que a lei comece a chamá-lo assim e isso esteja escrito em uma certidão. Buscar soluções jurídicas para, por exemplo, pensão, seguridade social, plano de saúde, etc, modificando abruptamente o sentido das palavras causará insegurança jurídica, desordem na sociedade. É possível outro tipo de contrato. Relações contratuais baseadas somente em afeto e interesses comuns se chamam clubes, associações, empresas, sociedades. No andar da carruagem, não demora para que sejam celebrados "casamentos" entre duplas do mesmo sexo, se conceda adoção e tudo o mais. Já se fala inclusive em arranjos "poliafetivos", vide análise do último censo. Será a volta da poligamia e poliandria institucionalizada, que existia antes da civilização.  Daqui há pouco haverá "casamento" coletivo. Isso é que é ser retrógrado e antiquado. Para tudo criam uma nova palavra para coisas velhas. Não dá pra concordar quando dizem que não querem destruir nada. Não só querem como o têm feito, há décadas. É certo que o casamento civil não passa de um contrato e que o religioso pode continuar com suas celebrações matrimoniais do jeito que quiser, mas se esse contrato já abarca tantas realidades de arranjos diferentes, já não se pode mais chamá-lo casamento, pois já não é muito diferente do contrato social de uma empresa particular. Está destruído, no Direito de Família, o casamento. Como não querem admitir isso, mudam o significado do termo até que ele não signifique mais nada. Isso se chama significante vazio, por culpa de Ernesto Laclau, sobre isso veja um pouco aqui. É a versão moderna do velho sofisma.

Agora defendem que o termo "homossexualismo" não é adequado, pois o sufixo -ismo é para doenças, o correto é "homossexualidade". Então comunismo agora vai ser comunidade? Capitalismo, capitalidade? Socialismo é sociedade? Eles vão ter que acostumar a discutir com quem acredita na "cristianidade"? 

Doença é essa tara de ficar mudando os termos a toda hora. Como isso já virou práxis, resta agora acrescentar algum adjetivo infeliz ao casamento e à família para se referir ao seu significado original: casamento tradicional, natural, antigo, etc. Será como se referir a triângulos de três lados, sem que as pessoas percebam o pleonasmo. Devemos preservar uma substância, não somente um nome, mas estamos mudando os nomes e a consequência é a perda da noção da substância. 

Dizer que algo é bom porque é antigo é tão falacioso quanto dizer que é bom porque é novoNão é porque a família é tradicional que a defendem. É porque a defenderam por milênios que ela se tornou tradicional. Justamente porque é uma instituição frágil, mas é o berço e a base da civilização, foi e deveria continuar sendo defendida, incentivada e fundada em bases mais sólidas do que a lama movediça dos sentimentos humanos. Enquanto isso, ficamos aqui debatendo termos, numa sociedade que não sabe nem que língua fala mais e acha que rejeitar as regras da lógica é a mais alta filosofia.

A mentalidade prejudicial ao bem comum é a prática maquiavélica de reformar intencionalmente os conceitos para atingir objetivos predeterminados, e não por o que as coisas são em si, gerando uma confusão semântica na mente das pessoas que atrapalha os diálogos e até o desenvolvimento da ciência. Isso é obscurantismo velado, disfarçado de esclarecimento. Na confusão encomendada sobre o que é o bem e o mal, o mal é não saber mais o que é o bem. Para parecer moderninho um monte de gente vai seguindo a moda e troca de opinião como quem muda de roupa. Efeitos colaterais de neofilia. Isso, sim, gera preconceitos e potencializa agressões, por pura incapacidade de entender o que o outro quis dizer. Em nome de um suposto progresso, estamos regredindo como civilização. Estão causando falácias de Parmênides de propósito, com o objetivo de causar confusão. Os discursos estão normalmente tomados de emoções e incompreensões de todos os lados e a boa-vontade tem passado longe. Não se deveria ofender nem apedrejar ninguém por pensar diferente, como esse pessoal aqui. Não se deveria censurar articulista pelo mesmo motivo, como aqui. Nem incentivar ou aceitar que se cometam agressões e ofensas contra quem quer que seja, ou alguém revogou o "não matarás" e não estou sabendo? Aliás, dizem que há uma epidemia de homofobia. O estudo completo do Grupo Gay da Bahia, completamente sem fontes de dados, indica "impressionantes" 260 assassinatos contra gays. Pois, se temos 49.932 homicídios no mesmo período, não preciso de doutorado para ver que os assassinos preferem duzentas vezes mais matar os heteros. Se o mesmo grupo afirma que os gays no Brasil são ao menos 10% da população, para haver homofobia os crimes deveriam apresentar uma proporção maior que esta em relação ao total, não 0,5%!!! Ah, sim, 99% dos brasileiros são homofóbicos e devem ser reeducados.  Democracia mudou de sentido também, agora é 1% dizer ao resto em que deve acreditar. Liberdade de crença também mudou, você pode ter a religião que quiser, desde que ela não discorde nesse ponto, senão você é homofóbico. O Estado agora assume a função de exegeta bíblico enquanto se diz laico. Estão me chamando de burro ou o quê? Então, se não sou comunista, sou comunistofóbico, se não sou nazista, sou nazifóbico, se não sou estrangeiro, sou xenofóbico? Se não gosto que toquem funk alto na minha rua eu sou funqueirofóbico? Se eu gosto de andar pelado, toda a sociedade deve mudar seus conceitos sobre eu não poder fazer isso em público? É minha maneira de manifestar amor por todos... Daqui a pouco vai ter parada do orgulho nudista. Direito agora é baseado nas vontades das pessoas, basta ter evidência científica que qualquer comportamento se torna lícito? Sempre houve pedofilia, poligamia, zoofilia e outros mais. Deve haver razões biológicas e psicológicas para isso, mas a explicação das causas não torna nada santo e intocável.

Afinal, essa é a sociedade que queremos? Com mais afeto? Veja o que confessam essas imagens, da manifestação recente na França pró-casamento-gay.


"Sim ao divórcio para todos" - Mas não queriam casar?

"Até a abolição do casamento. Liberdade, igualdade, orgulho"

Isso não irá gerar mais afeto na sociedade, mas incendiar um debate que de per si já é carregado de emoções e ressentimentos. Por tudo isso, não é bom para a sociedade brasileira o STF acreditar que tem o poder de mudar os significados de conceitos naturais - independentes da lei e da sociedade - para fazer nossa Lei Maior dizer o que nunca quis, além de exercer, na prática, o poder de constituinte derivado que deveria ser exclusivo do Legislativo. Será que nesse Admirável Mundo Novo já podemos dizer "feliz 1984"? 

“O progresso técnico é rápido, mas é inútil sem um idêntico progresso na caridade. Antes, é mais que inútil, porque nos disponibiliza uns meios mais eficazes para retroceder”. Aldous Huxley

A maior confusão, porque fonte de todas as outras, é a de afeto com amor. Atração sexual somente, tenha ela a causa que for, não é amor. Namoros, flertes, transas, são paixões, não amor. Podem ser componentes do amor, partes dele, mas não o são em sua totalidade. Há um quê de compromisso, doação, resiliência, renúncia, sacrifício, para que seja amor completo. Toma-se somente Eros e Philia, esquece-se do Agape. Quem  disse que o casamento é um mar de rosas, que as pessoas são infinitamente felizes e realizadas, que não há dificuldades nem restrições? Isso é romantismo ingênuo.  Casamento primeiro foi dever antes de ser direito. Voltemos a Roma, que conhecia tão bem a homossexualidade, estará lá o matrimônio e suas regras no corpus juris. Nada de homem com homem na lei. Por isso, o fundamento da família não deve ser os sentimentos que as pessoas têm, que nem sempre são bons, tranquilos e harmoniosos, mas o amor, porque é uma virtude, não um sentimento passivo, mas um propósito, uma disposição firme em prol de algo maior e que pode, sim, ser um mandamento, desejável como sólido fundamento para a sociedade. As crianças merecem ser amadas e não serem vítimas de gambiarras jurídicas e sociais. 

Encerro, de novo, com Chesterton, que viveu no início do século XX, com essa surpreendente descrição da nossa situação atual :


“Suponhamos que surja em uma rua grande comoção a respeito de alguma coisa, digamos, um poste de iluminação a gás, que muitas pessoas influentes desejam derrubar. Um monge de batina cinza, que é o espírito da Idade Média, começa a fazer algumas considerações sobre o assunto, dizendo à maneira árida da Escolástica: “Consideremos primeiro, meus irmãos, o valor da luz. Se a luz for em si mesma boa…”. Nesta altura, o monge é, compreensivelmente, derrubado. Todo mundo corre para o poste e o põe abaixo em dez minutos, cumprimentando-se mutuamente pela praticidade nada medieval. Mas, com o passar do tempo, as coisas não funcionam tão facilmente. Alguns derrubaram o poste porque queriam a luz elétrica; outros, porque queriam o ferro do poste; alguns mais, porque queriam a escuridão, pois seus objetivos eram maus. Alguns se interessavam pouco pelo poste, outros, muito; alguns agiram porque queriam destruir os equipamentos municipais. Outros porque queriam destruir alguma coisa. Então, aos poucos e inevitavelmente, hoje, amanhã, ou depois de amanhã, voltam a perceber que o monge, afinal, estava certo, e que tudo depende de qual é a filosofia da luz. Mas o que poderíamos ter discutido sob a lâmpada a gás, agora devemos discutir no escuro.” G. K. Chesterton, Hereges, Ed. Ecclesiae


Mais em:

http://gloria.tv/?media=358246
http://sacramentodeamor.org.br/novo/a-constituicao-brasileira-a-familia-e-a-inseguranca-juridica/
http://catholiceducation.org/articles/marriage/mf0060.html
http://www.firstthings.com/article/2013/02/homosexual-marriage-parenting-and-adoption

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Marx e as revoluções na linguagem

"Casuística inata nos homens a de mudar as coisas mudando-lhes os nomes! E achar saídas para romper com a tradição sem sair dela, sempre que um interesse direto dá o impulso suficiente para isso" (Karl Marx)

Impossível não perceber que seus discípulos aprenderam muito bem esse conceito, pois o empregam sistematicamente. Vejamos este texto do filósofo Dr. Peter Kreeft, traduzido por mim:
"Como um filósofo, a coisa que me mais me impressiona é a estratégia brilhante do movimento pelo casamento gay. Como Orwell em 1984, percebem que o campo de batalha principal é a linguagem. Se conseguirem redefinir um termo-chave como "casamento", eles vencem. Controle a linguagem e controlará o pensamento; controle o pensamento e controlará a ação; controle a ação e controlará o mundo. Mussolini sabia disso também. Ele tornou ilegal para os italianos dizer "olá" da maneira tradicional. O uso italiano para "como vai você?" é "Come sta lei?". "Lei" é um pronome feminino inclusivo. A ideologia fascista sustentava que isso não era másculo, era fraco, então você deveria dizer "Come sta lui?" a partir de então. "Lui" é o pronome masculino. Então ninguém poderia dizer "olá" na Itália sem se identificar como pró ou antifascista.
Na América, feministas venceram exatamente da mesma maneira. Rotularam a linguagem inclusiva, a linguagem de todos os grandes livros da civilização ocidental escritos em inglês, como exclusiva, pois usavam "he" e "man" para incluir as mulheres; e estabeleceram sua nova artificial invenção ideológica, que insiste, contrária aos fatos históricos, que "he" e "man" excluem as mulheres - rotulando esta nova linguagem de "inclusiva". Surpreendentemente, quase todos seguiram como ovelhas! Então será fácil, eu penso, para eles, redefinir casamento. Diabos, eles já redefiniram "seres humanos" ou "pessoas" de maneira que possam assassinar os menores seres assim que quiserem. Por que sentiriam alguma culpa sendo desonestos se não sentem nenhuma culpa cometendo assassinatos?
Eu penso que você encontrará que há uma esmagadoramente forte conexão entre essas três agendas: casamento gay, feminismo e aborto. E o que todas elas têm em comum é a atitude perante a linguagem: é o que o filme de propaganda mais poderoso e insidioso do mundo chamou de "o triunfo da vontade". No Canadá já é crime, punido com multa ou mesmo prisão, falar publicamente contra a homossexualidade. Ideias politicamente incorretas, como a moralidade Bíblica, são agora definidos como "discurso de ódio".
Uma das coisas que eu temo disso é um feio retrocesso contra os homossexuais. Se a verdade agora é o que queremos, de forma que não há o que possa impedir a sociedade de hoje de redefinir o casamento, então nada poderá impedi-la, no futuro, de redefinir a dignidade pessoal e os direitos para torná-los contra os homossexuais. Os nazistas fizeram exatamente isso. A Igreja é a melhor amiga dos homossexuais, pois diz a eles que são feitos à imagem de Deus e têm uma dignidade e direitos intrínsecos, sendo chamados a ser santos, e porque é a única força social restante que insiste em uma moral absoluta - então quando eles pecam contra si mesmos ela diz NÃO, da mesma maneira que faz com os heterossexuais que pecam contra si mesmos sexualmente, mas quando outros pecam contra eles ela também diz NÃO. Ninguém mais quer dizer NÃO. Ela fala para todos, inclusive homossexuais."

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ecce homo

Quando, no meu último texto sobre família, eu disse que me opunha às filosofias que pregam uma determinação do homem por ele mesmo, talvez poderia ter me expresso melhor pela palavra ideologia. Alguns exemplos seriam a eugenia, que influenciou fortemente o racismo e o nazismo, culminando no holocausto; o comunismo, que pretendia implantar o paraíso aqui na terra através da luta de classes e semeou o ódio pelo mundo matando milhões de pessoas; a ideologia de ausência de gênero, que acredita que não há identidade sexual predeterminada, mas que o sexo seria totalmente influenciado pelo meio, dentre outras. Toda vez que se negligencia algum aspecto da natureza humana e se tenta redefinir o ser humano por algo que ele não é, abre-se o caminho para as tragédias. Para mostrar que não me oponho à boa prática científica, antes a incentivo como meio para desfazer preconceitos, chamo à palavra um especialista em genética. Vamos ver como as coisas são.



Só não concordo com a última parte, onde ele comenta sobre a teoria da evolução e apresenta o argumento da maioria. Quando Galileu, Copérnico, Newton, Fourier e tantos outros propuseram suas teorias elas não foram bem recebidas pela maioria das pessoas em suas épocas, mas terminaram sendo aceitas por sua comprovada correspondência à realidade. Aliás, por maioria de votos já crucificaram e jogaram aos leões pessoas inocentes. Mas, isso já é outro assunto. Em resumo, existem evidências científicas que mostram tanto uma predisposição genética ou hormonal quanto fatores externos (sociais, culturais, psicológicos) que influenciam - mas não determinam - o comportamento sexual dos indivíduos. Quer dizer, cada um é um e dividir o mundo em heteros de um lado e homos de outro já uma enorme simplificação.

Com isso em mente, vemos que a discussão sobre a redefinição de casamento para incluir relacionamentos homossexuais pode ser acompanhada de desejos muito bons - a busca da felicidade e da justiça -, enquanto a oposição a essa redefinição pode ser motivada por sentimentos de medo ou ódio aos homossexuais. Contudo, a questão deve ser avaliada em seus próprios méritos e não pelos sentimentos das pessoas. Vamos fazer um exercício, neste momento, de não entrar em juízos morais ou religiosos acerca do comportamento de ninguém, apenas analisando as coisas objetivamente.

É verdade que podemos mudar de ideias e mudar as definições das coisas. Algumas redefinições são possíveis. Por exemplo, podemos criminalizar alguns comportamentos e depois descriminalizá-los. O adultério já foi crime, o homossexualismo também. Porém, algumas redefinições não são possíveis. Chamar quadrados de triângulos não os transforma em triângulos. Chamar cachorros de gatos não os fará miar. Dizer a um homossexual que ele não o deve ser não vai mudar nada, assim como chamar dois indivíduos do mesmo gênero de casal não os fará um casal. Isso não depende se são bons ou ruins, se suas intenções são boas, do que sentem um pelo outro, mas do que são, da sua natureza, da sua essência. As palavras que usamos estão ligadas a determinados conceitos. Se mudarmos a palavra, a coisa continuará sendo o que é e ninguém vai entender mais nada da conversa (infelizmente, é o que estamos percebendo em algumas situações: tem gente se aproveitando para gerar mais confusão e ganhar no grito). Se pensarmos que não há naturezas nem essências, seguiremos a filosofia do nominalismo e terminaremos completamente céticos sobre tudo.

Sabemos que a natureza do homem comporta um corpo físico que lhe foi dado, com algumas características predeterminadas, conforme vimos no vídeo. Não há escolha aqui, ninguém escolhe nascer com o corpo que recebeu. Todos temos também uma dimensão sentimental, que também é passiva. Nossos sentimentos ocorrem independente de nossa vontade. São muitas vezes influenciados pelo corpo físico através de sensações, hormônios, etc. Sentimos felicidade, raiva, atração, repulsa, medo, ansiedade, uma infinidade de coisas que nos vêm sem que tenhamos como escolher. Não posso escolher gostar de alguém, pois gostar é um sentimento. Às vezes temos desejos bem indesejáveis! A terceira dimensão é a mente, racional, que é capaz de receber as informações provenientes dos sentidos, processá-las e atribuir significados. Na racionalidade é que reside o poder de tomar decisões, de fazer escolhas, de fazer juízos. Quando a razão consegue controlar as atitudes que tomamos, a isso chamamos virtude. Estão esquecendo de ensinar isso para as crianças! Na verdade, existem vários modelos que explicam a natureza humana. Esse é bem simples,  auto-evidente e facilmente observável, o suficiente para desenvolver nosso raciocínio aqui.

A consciência é o último reduto da liberdade. Podem te prender e torturar, mas ninguém pode controlar o seu pensamento, a menos que você permita, ou seja enganado. Quando, ao contrário, são os sentimentos que controlam as atitudes, sem nenhum tipo de racionalidade, é como se o cachorro te levasse para passear e não o contrário. Você se torna escravo do seu lado animal. 

Considerando dessa forma a natureza humana, não posso concordar com a criminalização do que estão chamando de homofobia. Não com essa definição. Podemos aprender a controlar atitudes - mesmo que essa capacidade não seja absoluta -, mas nunca sentimentos. Não posso cometer um crime sobre uma coisa sobre a qual não tenho controle. Isso gerará mais sentimentos ruins, mais estranhamento, mais ódio. Tentar obrigar uma pessoa a ter sentimentos que não tem é como tentar obrigar um homossexual a deixar de sê-lo. Mais uma vez, não podemos redefinir a natureza humana. Não se cria afeto por decreto.

Podemos perceber, também, nas discussões, que é natural querer demonizar as pessoas que têm opiniões contrárias à sua. É natural confundir oposição com ódio. É natural se sentir ofendido. É natural querer ofender, falando o que pensa sem pensar no que fala. É natural ter preconceitos. Mas, porque é natural não quer dizer que seja bom, nem desejável. Isso tudo se vence usando a inteligência, exercitando as virtudes.

Vamos supor, portanto, para sermos científicos, que existem algumas coisas que são descobertas, e não inventadas. Já observamos como as pessoas são. O bom andamento da discussão depende de uma coisa só: se o casamento e a família são uma invenção humana, portanto passível de redefinições, ou se têm uma natureza própria que deve ser descoberta pela razão. É imperativo escolher um dos dois, pois são pensamentos contraditórios entre si. Ou então, lave suas mãos.


PS: Ecce Homo, "Eis o homem", são as palavras, em latim, que Pôncio Pilatos disse ao apresentar Jesus Cristo aos judeus.

PPS: Se você se interessar pela resposta católica a um homossexual, recomendo este vídeo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Família - afetos e afetações

A biologia nos ensina que o encontro de um espermatozoide e de um óvulo gera um embrião, que gera uma nova vida. A natureza reservou esse movimento extraordinário de propagação da vida para uma complementaridade expressa em dois sexos diferentes na espécie humana. Por isso estamos aqui, por isso podemos escrever e ler esse texto. Necessariamente, você que me lê veio desse encontro de dois indivíduos. As sociedades humanas, bem antes de saberem da existência das células microscópicas, perceberam que a relação sexual de um homem com uma mulher tinha grande potencial de resultar em bebês. Ainda que a libido sexual fosse tratada de maneiras diferentes em diferentes épocas e lugares, a humanidade percebeu que havia algo de sagrado nessa relação. Sagrado, porque diferente das demais: era capaz de gerar vidas. Ainda que existissem outros afetos, outras paixões, essa tinha um toque especial, pois propagava nossa existência. Antes do Direito, da Filosofia e da Religião, nossos tataravós não precisaram de muito estudo para perceber isso. Mesmo sem Medicina, nossas avós fizeram sexo com seus homens, deram à luz e amamentaram seus filhos para que hoje estivéssemos aqui. Esses afetos produziram ideias na mente das pessoas, dando-se nome a eles: pai, mãe, filhos, família. Outros afetos eram aluno, professor, escravo, senhor, servo, aprendiz. Mesmo as sociedades que sabemos ser mais explícitas outras relações sexuais não ousaram chamar esses prazeres de família. Existe uma ideia natural de família que veio da própria natureza.

A organização estatal, em sua evolução histórica, veio a reconhecer essa instituição, anterior ao próprio Estado. Tomou como seu dever tutelá-la e protegê-la, por reconhecer nela a célula fundamental da sociedade, de fato a primeira comunidade em que os seres humanos são gerados e recebidos e onde aprendem, bem ou mal, a conviver. É de interesse público notório o bem que a família natural produz na sociedade. À parte outros bens, ela garante que possamos falar de sociedade, pois garante que possamos vir à vida. Sua importância é tal, que sem ela não há sociedade.

O reconhecimento de fenômenos naturais que regem o comportamento e a própria condição de existência do ser humano e da sociedade leva a crer que há uma lei moral natural que não está necessariamente escrita, expressa, mas que se desobedecida, colocará em risco a legitimidade da lei positivada. Aqui me oponho, decerto, ao chamado Direito Positivo, à medida em que se abre a possibilidade de estabelecer, através das leis humanas, realidades contrárias à própria natureza do homem. Me oponho também às filosofias que pregam uma determinação do homem por ele mesmo, como se ele fosse capaz de se autoconstruir e autodeterminar e não estivesse limitado a nada exterior a ele. A lei civil, portanto, quando se afasta em demasia da realidade humana corre o risco de perder a força de obrigar a consciência, corre o grave risco de gerar uma mentalidade e um costume artificial, não conforme a natureza, que foge à verdade, e, por consequência, ao bem. Os modelos e conceitos nela expressos tendem a inundar a língua corrente, se tornando rapidamente senso comum, moldando nas novas gerações a compreensão e avaliação dos comportamentos.

Os sistemas jurídicos contemporâneos celebram, felizmente, os princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade em suas Leis Maiores, o que permitiu acabar com diversas injustiças. Primam, também, pela busca da isonomia, que desde Aristóteles é muito bem entendida como "tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais". É essa igualdade justa que não permite que surjam discriminações sem uma base lógica e racional para tal. É essa desigualdade justa que permite à mulher licença maternidade, que permite aos idosos e deficientes tratamento diferenciado, dentre outras coisas, por reconhecer motivos naturais para tal. É essa desigualdade justa e digna que confere, naturalmente, lugar de honra à realidade única que é o modelo homem-mulher-filhos, que a natureza nos coloca, independente de nossa vontade. (Pode-se dizer que é um monopólio natural, que nunca será suplantado por outra configuração em sua potencial geração de novas vidas.) Esse reconhecimento específico confere diversos direitos aos indivíduos que realizam esse modelo. 

Pois bem, com o objetivo de que esses mesmos direitos sejam integralmente estendidos a outros tipos de relações, pautadas tão somente por laços afetivos, está-se recorrendo à desconstrução conceitual desse modelo. Precisa-se mudar a ideia de família nos conceitos jurídicos, para que as leis possam ser alargadas. É isso que vem sendo feito no mundo, e no Brasil, com o objetivo claro e declarado de construir um novo modelo familiar, equiparando-o conceitualmente ao modelo natural, não somente no ordenamento jurídico, mas na mentalidade da sociedade. O modelo de família que está sendo proposto ao povo brasileiro é o de uma comunidade de pessoas unidas somente por laços afetivos, contemplando, assim, diversas configurações possíveis. A dimensão procriativa, que é tão cara à nossa existência, é colocada como um mero detalhe, quando não totalmente dispensável. Exemplos desse movimento na atividade do STF brasileiro podem ser conferidos nos links:


Pode-se ver já um reconhecimento de fato desse novo conceito na legislação infraconstitucional, como por exemplo na Lei Maria da Penha.

Seria justo e coerente modificar conceitos a fim de conceder direitos a uma classe que definitivamente não irá produzir o mesmo grau de benefício à sociedade que a família natural? Não se poderia criar uma outra condição jurídica de forma a produzir os efeitos materiais reclamados por esse indivíduos, dignos em sua condição humana, mas definitivamente estéreis? Não seria, também, um desrespeito à condição humana e à justiça equiparar situações que naturalmente são impossíveis de ser equiparadas sem atentar contra a reta razão que nos diz que dois homens ou duas mulheres, por mais que queiram, não conseguirão produzir o mesmo efeito que um homem e uma mulher, considerando iguais coisas que não são? Pode-se falar em dignidade da pessoa sem honrar e respeitar o processo que faz com que essa pessoa venha a existir? As sociedades estão enfrentando, cada vez mais, complicados problemas demográficos e previdenciários com a queda das taxas de natalidade. Alguns países estão percebendo que correm o risco de diminuírem perigosamente sua população. Não seria a hora de voltar a valorizar a família natural? Creio que a construção artificial de uma mentalidade que não dá o devido e justo lugar ao mistério da vida humana não irá contribuir para o bem da nossa civilização. 

Afinal, temos o direito de ditar à natureza o nosso Direito? De minha parte, cada choro de bebê que eu ouvir será para mim um testemunho da natureza de que não há lei humana que revogue essa realidade tão bela: todos somos filhos de um pai e de uma mãe.